sexta-feira, 26 de junho de 2009

Uma garrafa é muito, uma caminhão é pouco

Carolina Soares Marquis
Um portão pequeno de ferro pintado de preto e uma porta discreta. Ao atravessar a porta se vê desenhos que, se vítimas de um olhar distraído, poderiam ser confundidos com rabiscos infantis. Não o eram. Pinóquio fumando, dragão fumando, chaminé fumando, esqueleto-quase-apagado-pelo-tempo fumando. A maioria dos desenhos daquela ex-parede branca e atual parede suja fumavam. Exceto por um arco-íris em que mais da metade das cores faltavam e uma pergunta instigante questionava incessantemente: “quem sou eu?”.

Essa pergunta não é difícil de ser descoberta depois que se dão alguns passos e chega-se a uma sala com bancos longos e de madeira vulgar, muitas placas, fichas coloridas, cartazes, imagens de santos pendurados nas paredes e um aviso luminoso que não parava de piscar e lembrar aos desavisado: “EVITE O 1º TRAGO. DE 24 EM 24 HORAS”.

AA – Alcoólicos Anônimos.
No AA todos se chamam de “companheiro(a)” porque verdadeiramente o são. Foram companheiros na bebida e agora são de recuperação no programa de 12 passos.

1. Admitimos que éramos impotentes perante o álcool - que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas.
2. Viemos a acreditar que um Poder superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade.

Companheira Sandra II

Mulher de cabelos pretos e bem cuidados cortados à altura dos ombros. Por sua figura poderia perfeitamente ser a vendedora de uma loja de roupas infantis, ou a orientadora pedagógica de um colégio de classe média, mas não o é. É uma alcoólatra em recuperação como a maioria das pessoas que está naquela sala de janelas de banheiro.

Sandra diz estar há 24 dias sem beber e isso é, para ela, a maior vitória já alcançada. Essa mulher de quarenta e poucos anos começou a beber em 1999, no mesmo período que entrou em profunda depressão. Desde então ela se embriagava quase que diariamente. Decepcionou filhos e familiares, perdeu o emprego que tinha de secretária de um ginecologista e chegou ao que eles chamam de “fundo do poço”.

3. Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos.
4. Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos.

Companheiro Sílvio VIII

Camiseta da banda Kiss. Cabelos compridos e revoltos presos por um elástico amarelo de amarrar o dinheiro que ele não tem. Calça preta. All Star preto. Pele maltratada cravada por algumas espinhas. Alcoólatra.

O companheiro VIII diz ter se mantido bêbado por 30 anos. Estava há dois sóbrio até o dia 18 de maio.

“Pra mim a bebida é fogo. O álcool é um conforto que eu nunca encontrei igual. Dia 18 não suportei: acordei, tomei três doses de uísque, almocei e dormi. Agora é levantar, sacudir a poeira e seguir em frente.”
Todos na sala enxergam o Sílvio que há dentro de cada um deles. O Sílvio que não agüenta e se rende ao vício, o Sílvio que simplesmente não pensa na manhã seguinte e nesta se entrega a uma dose de uísque.

Uma senhora magrinha de cabelos brancos sentada na última fila se levanta e vai ao encontro do gigante vestido de Kiss e lhe dá um abraço incrivelmente puro.

5. Admitimos perante Deus, perante nós mesmos e perante outro ser humano, a natureza exata de nossas falhas.
6. Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter.

Companheiro Jairo G.
“Eu já fui internado quarto vezes, já fui batuqueiro e já fui evangélico. Só no AA eu encontrei a cura. E eu nem entrei aqui pra me curar: entrei aqui pra mostrar pra minha família que eu tinha tentado de tudo e nada tinha funcionado. Entrei aqui para pararem de me encher o saco. E não é que funcionou?”

Assim Jairo inicia seu depoimento. As palavras duras não combinam com seu jeito descontraído e brincalhão. A maneira como as profere, faz com que elas percam parte do peso e ganhem leveza.
O companheiro diz ter mentido tanto na vida que hoje em dia, ao tentar se lembrar de alguma história do passado, ele não sabe dizer ao certo qual parte é verdadeira e qual é inventada. Ele mentia para conseguir dinheiro, mentia para justificar suas ausências, para ganhar tempo, para ouvir palavras de conforto, mentia porque sim e porque não.

Quando Jairo fala isso, muitas pessoas que o escutam e esperam sua vez de falar baixam a cabeça e, provavelmente, vêem nele sua imagem e semelhança. A mentira é um ponto comum entre os companheiros de AA. A mentira é um sintoma da doença que todos naquela sala compartilham.

7. Humildemente rogamos a Ele que nos livrasse de nossas imperfeições
8. Fizemos uma relação de todas as pessoas que tínhamos prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos a elas causados.

Companheiro Osvaldo II

“Hoje eu não bebi e tá bom. Tá muito bom. Hoje. Tá ótimo. Tô levando. Graças a Deus.” Segundo relatos, é dessa forma que começa o depoimento do companheiro Osvaldo há 15 anos, que é também o tempo que ele está sem beber.

“Fundamentalmente eu venho às reuniões pra lembrar que eu sou doente. Sem vir aqui não funciona, não dá certo. Porque eu não sei dar uma banda: eu sei é ir pro boteco. Se eu bobear ela me pega mesmo. O difícil não é parar de beber: é continuar sóbrio”.Essa é a sina de todos os membros do AA: a vontade permanente de dar o primeiro gole e a consciência do perigo que esse representa para sua recuperação.

9. Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-las significasse prejudicá-las, ou a outrem.
10. Continuamos fazendo o inventário pessoal e, quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente.

Companheiro Abroir
No momento em que a coordenadora profere o nome de Abroir inicia um burburinho na sala. Aqueles que estão em sua primeira reunião não entendem o porquê da reação da “platéia”, mas bastam alguns segundos para ser compreensível a todos a razão do fuzuê: Abroir é das figuras mais carismáticas do AA.

O vocabulário que utiliza deixa transparecer a todos a origem simples da qual provém. Os cabelos brancos e a pele negra contornam a bonita pessoa que é.

“Quando eu fui internado eu vi o bicho; eu vi ‘as parede’ rachar. Todo mundo me dizia:’bêbado, gambá e maconheiro tu vai ser até morrer. Tu não tem mais salvação’. Na Pinel eu vi que ali dentro 50% era louco e os outros 50% achava que não era”, fala de maneira expansiva e bem resolvida o Abroir.

O companheiro admite que o momento mais difícil foi também o mais importante para sua recuperação: “quando a gente se dá conta que tem que mudar é ótimo, mas mudar dói mais que qualquer outra coisa”.

“Cheguei aqui chamando urubu de ‘minha loira’. Hoje tá tudo mudado graças a Deus, a vocês e a minha força interior”.

11. Procuramos através da prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma em que o concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós e forças para realizar essa vontade.
12. Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades.

Companheiro Norli
Norli é, na verdade, o ideal de recuperação de todos os presentes na sala do grupo Santana e, provavelmente, em todos os outros grupos do AA. Em processo de recuperação há 32 anos Norli está a esse mesmo tempo sem beber o primeiro gole. Está também há 32 anos freqüentando religiosamente as reuniões desse grupo que ele ajudou a fundar.

Norli é prático em seu jeito de falar e diz: “estou aqui por um compromisso moral, me sinto obrigado a contribuir para a recuperação dos meus companheiros uma vez que eu já tive toda a ajuda que precisei”.

Mas o senhor de oitenta anos diz que está ali principalmente para exercitar a cabeça. “Tenho mania de me atualizar em tudo: no AA e nos jornais. Esses dias eu disse pra Preta que a gente é o casal mais bem informado de Porto Alegre – a gente sabe de tudo! Estou aqui por uma questão racional; nada de sentimentalismos baratos”.

O idoso pensante também se mostra bem humorado: “vou terminar com uma anedota para que as pessoas não pensem que a gente só sofre por aqui. A gente chega triste, mas sai feliz por nossas vitórias”.

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CPC: novo ambiente de trabalho gera insatisfação

Leila García

O Centro Popular de Compras (CPC) é o endereço de 800 ex-camelôs, agora caracterizados como vendedores populares. Fora das ruas demonstram descontentamento, já autoridades e sindicato destacam qualidades.


Desde os dez anos de idade Raimundo Debem (48) é vendedor. Na década de 90, em frente ao Mercado Público, na Praça XV, já tinha ponto fixo licenciado pela Secretaria Municipal da Produção, Indústria e Comércio (Smic) e profissão definida: camelô.Já Vicente Rocha trocou a profissão de representante comercial pela informalidade, há 20 anos, quando o aumento da pirataria enfraqueceu as vendas. Desde então passou a ofertar seus produtos na rua. “Fui o primeiro a colocar as camisas de times esportivos nas ruas”, orgulha-se. Há um ano estava na Rua dos Andradas e, também, alugava banca de um portador de deficiência da Praça XV.

Em 2007, por decreto Municipal ficou determinado e normalizado o funcionamento do CPC. Nesse ano, foi anunciada a transferência dos camelôs que concentravam suas atividades nas principais ruas e praças de Porto Alegre.

Desde o princípio, prevaleceu a divergência entre os camelôs e as autoridades, em relação a escolha dos contemplados e o modo de alocação. Assegurada a preferência aos portadores de deficiência visual, o tempo de propriedade de banca nas ruas foi determinante para aos demais. Conforme o fiscal da Smic Valter Souza Correa, “a ideia era que os ambulantes ocupassem o CPC por antiguidade. Mas os da Andradas queriam sorteio entre todos, seria injusto, pois, a feira era em tempo parcial”. Cerca de 30 comerciantes, ainda estão na lista de espera e aguardam espaço no CPC, já que está proibida a atividade dos camelôs nas vias públicas.

Tanto Debem, como Rocha apontam queda de 50% nas vendas. Os 10 mil metros de extensão do CPC são divididos, por duas passarelas, em dois blocos e placas indicam a existência de mais lojas ao fundo. A banca de Rocha está situada no chamado “lado B”, em direção a Avenida Mauá, após a passarela, com apenas uma entrada lateral e considerado o ponto de menor fluxo e vendas.

Contudo, essa divisão não estava prevista no projeto original. Estavam previstos, porém, acessos a todas as ruas do entorno. Antes os camelôs estavam espalhados e os produtos ficavam a mostra para todos que passavam no centro, hoje, “os vendedores estão concentrados em um único ponto, com mercadorias semelhantes, então as pessoas entram, olham a primeira banca e saem“, relata Rocha. “Jesus não agradou a todos, tem muitos camelôs que não querem ficar ali e criam mil obstáculos” é o que afirma Moacir Gutierres de Souza, presidente do Sindicato dos ambulantes.

Souza, garante que a maioria dos ambulantes está satisfeita com o novo ambiente, localizado numa área central, com fácil acesso e infra-estrutura. A Smic considera ilegítimas as reclamações, pois tem observado o aumento da disponibilidade de mercadorias e aquisições por parte dos ambulantes.

Por ficarem em torno de 12 horas por dia nas bancas, os comerciantes revelam que o custo da alimentação é alto, já que é o mesmo cobrado aos clientes. Por isso recorrem a clandestinidade, ou seja, comidas fornecidas as escondidas por alguém de fora. Quanto a utilização dos sanitários, obrigam-se a deixar as bancas fechadas, porque têm de esperar a fila formada por clientes que querem utilizar o serviço gratuito destinado somente aos vendedores.

A necessidade de investimento dentro do CPC é maior do que nas ruas. Além de manter a banca sortida é necessário pagar o aluguel cobrado de acordo com o espaço disponibilizado e condomínio. Nas ruas, Rocha tinha despesas com o aluguel do espaço na Praça XV, local para guardar o carrinho e transporte dos produtos, cerca de 250 reais. Agora paga em torno de 470 reais pela infra-estrutura e espaço de 3,33 metros, ao qual se refere como “gaiola”.

“O camelô sempre vai dar uma chorada, por causa do tamanho da loja, ou de onde está”, afirma Correa. Se, é este o caso, Debem afirma que já comeu o próprio carro e até agora só teve prejuízo. Já Rocha, olha com ansiedade para a rua quando está chovendo, “antes a gente corria até o atacado e comprava guarda-chuva, pegava as pessoas desprevenidas e já ganhava alguma coisa, agora fico sentado esperando o cliente aparecer”. O fluxo de pessoas é grande nos corredores do camelódromo e como as compras não acompanham o mesmo ritmo, no quarto mês de funcionamento o CPC ainda vive de expectativa.

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O filho de Brasil e Angola

Caroline Berbick

Qual a relação entre Brasil e Angola? Ambos foram colonizados pelos portugueses, têm grande diversidade cultural e religiosa, apresentam alto índice de desigualdade social e, desde 2006, compartilham um jovem determinado, chamado Segunda Eduardo Tomás Tavares.

Segunda Tavares é um angolano de 26 anos que veio ao Brasil em 2006 para realizar o sonho de cursar o Ensino Superior. A oportunidade surgiu de um convênio entre a Igreja Metodista de Angola e a do Brasil, que oferecia 12 vagas concorridas entre quatro mil estudantes. Durante três meses, Segunda participou do processo de seleção e foi aprovado para receber a bolsa. A partir de então, sua perspectiva de vida mudou.

Angola possui apenas uma universidade pública e dispõe de faculdades particulares que cobram dez vezes mais que o valor do salário mínimo angolano. Diante de tais condições, o acesso ao ensino superior se faz quase impossível à grande parcela da população que vive na pobreza. Segunda morava na periferia da capital de Angola, Luanda. Sua família migrou do interior para a cidade em função da guerra civil que castigou o país entre 1975 e 2002. Apesar de algumas divergências, ele milita no Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), um dos partidos responsáveis pela independência do país. “A política de lá é complicada assim como a do Brasil. Mas eu ainda acredito. É impossível não participar da vida política do país”.

Segunda tem um irmão e duas irmãs. Todos estudam ou trabalham graças ao incentivo do pai, professor do ensino primário. Ele lembra que a condição das escolas que freqüentavam eram precárias, mas o pai sempre os encorajou a seguir em frente. Ele terminou o Ensino Médio e trabalhou como professor de química por três anos. A mãe é camponesa e cuida de um pequeno sítio, que em Angola, chama-se “lavra”.

No Brasil, Segunda tem moradia e alimentação garantidas na casa do estudante do Instituto Porto Alegre da Igreja Metodista (IPA). Apesar da paixão pela Enfermagem, ele estuda Administração e Ciências Contábeis, cursos com grande demanda de profissionais em Angola. Seus dias baseiam-se em freqüentar a faculdade de manhã e de noite, e estudar na parte da tarde. Além disso, faz um curso técnico para locutor de rádio e, nos fins de semana, joga futebol com africanos e brasileiros, vai à Igreja, e ao cinema quando sobram algumas economias.

Uma das coisas que o angolano mais estranhou no Brasil é a relação entre as pessoas. Para ele, os brasileiros são muito resguardados. Segunda conta que em Angola, a vida comunitária é bem mais forte. “A pessoa que mora ao teu lado é a primeira que vai te ajudar quando estiver em dificuldade. Fazemos isso com a maior naturalidade. Talvez pela extrema pobreza em que vivemos, aprendemos a conviver assim”.

Em terras brasileiras, seus maiores amigos são os colegas intercambistas e os membros da Associação dos Missionários da América do Sul. Ele passou a freqüentar esta Associação porque encontrou mais jovens do que na Igreja Metodista. “No Brasil as igrejas são vazias e têm poucos jovens. Em Angola existe mais irmandade, mais intensidade e alegria no louvor”.

A liberdade dos brasileiros surpreendeu Segunda. A relação entre pais e filhos e a relação entre professores e alunos chocou pela falta de hierarquia. “Em Angola temos o respeito baseado no medo. Escolhemos as palavras quando falamos com os pais”. O estilo de namoro brasileiro também surpreendeu pela falta de compromisso. Apesar disso, Segunda confessa que teve alguns relacionamentos no Brasil, mas não agüentou. “Os namorados angolanos costumam se ver somente nos fins de semana e aqui no Brasil ficam muito em cima! Tem que se ver o tempo inteiro e eu não tinha tempo”. Segunda está à procura de uma namorada. Diz que, se encontrar, vai levá-la para Angola por um período de dois meses de teste, para ver se ela se acostuma com a cultura diferente.

Durante os primeiros semestres, ele estagiou em agências bancárias e se apaixonou pela profissão. Quando voltar para seu país, um dos planos é seguir esta carreira. Seu trabalho de conclusão, inclusive, tem como tema o papel do crédito bancário na distribuição de renda. A ideia é baixar os juros e estimular a ascensão das camadas pobres da sociedade.

Esta noção de responsabilidade social, Segunda conta que só conheceu no Brasil. Na faculdade, ele mudou sua visão de sociedade e de futuro. “Em Angola, o pessoal luta para ser rico e depois abandona a comunidade em que nasceu. Negligencia o bairro e os amigos que tinha”. Ele admite que pensava em estudar no Brasil somente para construir uma boa carreira profissional, mas hoje as ambições são diferentes: “Não importa ter um bom emprego e ganhar rios de dinheiro, se ao teu lado tem gente que morre de fome”.

Segunda visitou a família em dezembro de 2007 e percebeu que Angola teve alguns avanços. Abriram novas faculdades particulares com preço mais acessível e o investimento de empresas estrangeiras está gerando mais empregos. No entanto, questões como saneamento básico continuam precárias e a marginalidade entre os jovens da periferia continua aumentando.

Frente a esta realidade, Segunda resolveu não ficar parado. Quando voltar para seu país, planeja montar um projeto social que recupere estes jovens: “Eles não têm previsão de melhora. Precisam de um modelo de pessoa em quem possam se inspirar. Alguém que sente com eles, converse, mostre que a vida não se baseia só no que eles vivem”.

O convênio com a Igreja Metodista cobre somente a graduação, e Segunda quer mais. Ele procura apoio para fazer doutorado e mestrado. O jovem que “tinha tudo para não dar certo”, como ele mesmo diz, está se formando em duas faculdades e tem sonhos do tamanho do mundo. Quer ser radialista, talvez professor, talvez montar uma Universidade, talvez trabalhar em um banco, talvez mudar um país.






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Editorial junho

Em uma conjuntura de descrédito político, delegação das decisões aos que nos representam em Brasília e na Assembléia Legislativa, estar acompanhando o re-surgimento de um movimento de organização popular é estupendo. Estamos cansados de ouvir que não temos como mudar a situação em que vivemos que ninguém participa e que é assim desde que meu avozinho era criança.

Pois bem, há o que mudar sim, e é isso que vários movimentos vem fazendo cotidianamente nas ruas, trazendo suas indignações, mostrando sua insatisfação com governos corruptos, com a precarização do trabalho e com a negação dos direitos sociais. Noticiar que a classe trabalhadora está se organizando não é somente trazer a notícia à tona, como também é dizer que se pode lutar e não somente delegar cargos e decisões a outros.

No entanto, a grande mídia não noticia, ou quando o faz, traz somente o lado negativo de uma greve ou paralisação, e assim querem que se continue a levar a vida, na mesmice, sem nenhuma perspectiva de transformação. Contudo, quando chegam aos olhos e ouvidos noticias como a reconstrução de um movimento social como o do Movimento Aquarela da População de Rua, entende-se o real significado de participação e de controle social, que todos têm o direito de se manifestar e de se organizar coletivamente, e que é o povo organizado que tem o real poder de decisão.

E ao participar, ao ler ou se informar sobre movimentos, como esse, que estão realmente lutando, começamos a nos dar conta que podemos sair da mesmice. Recebemos oxigênio para continuarmos na nossa caminhada conjunta de noticiar como também construir uma sociedade mais justa para a população deste país tão injusto e desigual.

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Municipários fazem paralisação geral

Caroline Berbick
O Sindicato dos Municipários de Porto Alegre (Simpa) realizou no dia 09 de junho, uma paralisação geral dos funcionários públicos municipais. Cerca de 200 trabalhadores de variados setores, como Saúde, Educação, Limpeza Urbana e Assistência Social, se reuniram em frente à Prefeitura para reivindicar reajuste salarial e melhores condições de trabalho.

O dia de mobilização começou com um manifesto em frente ao Hospital de Pronto Socorro (HPS), por volta das 9h30 da manhã. Em caminhada, os trabalhadores da Saúde seguiram até o Paço Municipal para unirem-se ao restante dos municipários que, apesar da chuva fina, lotavam a frente da Prefeitura.

Segundo a presidente do Simpa, Carmem Padilha, “o objetivo da paralisação é pressionar o governo para que venha para as negociações com o sindicato de uma maneira mais concreta, apresentando uma proposta que atenda minimamente às reivindicações”. Os municipários querem reajuste salarial de 17%, porém, na última negociação, a prefeitura concedeu apenas 1%. Além disso, exigem assistência de saúde, cumprimento da lei de bimensalidade, aumento do vale alimentação, permanência da insalubridade na Saúde, e o recuo da crescente terceirização do serviço público.

A manifestação contou com um almoço coletivo e, na parte da tarde, seguiu em caminhada para a Secretaria Municipal de Educação, que é classificada como autoritária pelos municipários. No dia 17 de junho está agendada uma assembleia do Simpa para avaliar propostas e planejar os próximos passos.

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Encontro reúne 5 Estados em Canoas

Felipe Baierle
Pra que(m) serve a comunicação? Responder a essa e a outras questões foi o objetivo dos mais de 50 estudantes dos cinco Estados reunidos em Canoas de 11 a 14 de junho. Além do Rio Grande do Sul, participaram do Encontro Regional dos Estudantes de Comunicação Social (Erecom), representantes de Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo.

O Erecom é o encontro anual dos estudantes de três cursos do ensino superior: Jornalismo, Relações Públicas e Publicidade & Propaganda. Cada região do país tem seu próprio Encontro, que é normalmente realizado em grandes cidades e capitais. A comissão organizadora do Erecom Sul quis inovar, trazendo o evento para a periferia de Canoas. O lugar escolhido foi a Escola Municipal Tiago Wurth, no bairro Mathias Velho.

– A proposta de realização do encontro na periferia foi para descentralizar os debates e integrar os estudantes universitários com a vivência de grande parte da população brasileira: a pobreza – contou Fernanda Nascimento, estudante de Jornalismo e uma das organizadoras do evento.

Durante os quatro dias de duração do Encontro, foram realizados painéis, palestras e oficinas para trabalhar a organização política dos estudantes de comunicação. Um dos debates que mais avançou foi o da regulamentação profissional para jornalista. Ao contrário da recente decisão dos ministros do STF, de acabar com a regulamentação profissional dos jornalistas no último dia 17 de junho; os estudantes posicionaram-se a favor da exigência do diploma universitário para o exercício da profissão.

Outro tema do Encontro foi a criminalização dos movimentos sociais. O ataque recebido pelas organizações dos trabalhadores brasileiros foi detalhado pela fala de um representante do Movimento dos Sem Terra no evento.

Édson Borba, da Secretaria de Direitos Humanos do MST, comparou os Atos Institucionais (AI) criados no período da ditadura militar brasileira às Instruções Operacionais (IO) utilizadas atualmente pela Brigada Militar. Estas Instruções Operacionais são basicamente ordens militares com força prática de lei: o supra-sumo da antidemocracia.

À noite, serenatas e discos-voadores
Segundo Fernanda Nascimento, uma das maiores preocupações da comissão organizadora do Erecom foi a segurança dos participantes. Era perigoso sair à noite, por isso as festas de integração aconteceram todas dentro da Escola.

– Na sexta-feira tivemos um show solo do músico Tiago, dos Horácios. Nas outras duas noites, os estudantes encontraram lazer nos violões e serenatas ao luar, com direito a fogueira no pátio da escola, quentão e uma bebida do Rio de Janeiro que fez a festa da gurizada: o disco-voador (cachaça, limão, açúcar e canela) – contou.

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sexta-feira, 19 de junho de 2009

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Compare a "notícia" do JN com o vídeo abaixo: quem tem razão?

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Polícia agride universitários em manifestação pacífica na USP

Vídeo produzido por um grupo de estudantes independentes da USP.

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terça-feira, 2 de junho de 2009

Encontro regional dos estudantes de comunicação

O Erecom será realizado de 11 à 14 de junho, em Canoas. Esta edição do encontro tem como objeto de debate: para que(m) serve a comunicação? São esperados cerca de 200 estudantes dos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Nomes como Oswaldo Biz, especialista em democratização da comunicação; Rafael Guimarães, autor do livro abaixo a ditadura, sobre o movimento estudantil na época durante o golpe militar; e Celso Schroder, ex-presidente do sindicato dos jornalistas, estão confirmados para o evento.

O evento contará, durante os quatro dias, com a exposição “Direito a Memória e a Verdade”. Exposição fotográfica sobre os 21 anos de ditadura militar no Brasil (1964 a 1985) percorreu 25 cidades do cone sul e esteve presente no Fórum Social Mundial em Belém – PA. O incêndio da sede da União Nacional dos Estudantes no Rio de Janeiro, a invasão da Universidade de Brasília por 400 policiais militares, a criação do Serviço Nacional de Informação e o anúncio do Ato Institucional número 5 estão entre os fatos lembrados pela mostra fotográfica.

ENCONTRO REGIONAL DOS ESTUDANTES DE COMUNICAÇÃO SOCIAL (Sul/Sudeste)

ERECOM 2009
Para que(m) serve a comunicação?
Canoas/RS - de 11 a 14 de Junho de 2009
Categorias
A - Inscrição + Alimentação + Alojamento: R$ 65,00
B - Inscrição + Alimento: R$ 50,00
C - Inscrição+ Alojamento: R$ 30,00
D - Somente inscrição: R$ 10,00

Sede: Escola Municipal Tiago Wurth, Av. Rio Grande do Sul 4240 - Mathias Velho , Canoas /RS

PROGRAMAÇÃO
11/06 (quinta)
Manhã - Credenciamento
Tarde - Abertura
Noite - Painel Sociedade

12/06 (sexta)
Manhã - Painel Democom
Tarde - Grupos de Discussão Sociedade e Democom
Noite - Painel Regulamentação Profissional

13/06 (sábado)
Manhã - Vivência
Tarde - Painel Qualidade de Formação (QFC)
Noite - Grupos de Discussão Opressões e QFC

14/06 (domingo)
Manhã - Livre
Tarde - Reunião Regionais
Noite - Encerramento
Contato e dúvidas: erecomsul@hotmail.com Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. http://erecom.wordpress.com
APOIO ENECOS - Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social

Inscrições Erecom 2009 – Informações Completas!
Então pessoal,
Segue agora informe detalhado sobre as inscrições para o Erecom. É tudo bem simples. São instruções diferentes para os participantes e para os mobilizadores locais. Vamos começar, passo a passo, pelos participantes:

Participantes
1 – Faça o download da ficha de inscrição aqui, preencha a mesma completamente e repasse para o responsável pelas inscrições em sua cidade/faculdade. Se a essa altura do campeonato você não conhece ninguém que esteja responsável pelas inscrições na cidade que você mora, entre em contato diretamente conosco pelo e-mail: erecomsul@hotmail.com;

2 – Efetue o pagamento diretamente para o mobilizador local. Ele ficará encarregado de repassar todo o dinheiro das inscrições de uma só vez, para a comissão organizadora local até o dia 09/06 (terça-feira).

3 – Cuidado para não esquecer de indicar se sua preferência é por alimentação vegetariana, ou não, ok?;

4 – Por conta da natureza do prédio que será sede do Erecom, não será disponibilizado espaço para camping;

5 – Pronto, agora é só fazer as malas e se preparar para participar do Erecom Sul/SE1 2009;


Fernando Rotta Weigert
(51) 91058160

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segunda-feira, 25 de maio de 2009

Bato panela por meu filho

Felipe Baierle
Na esquina da Borges com a Andradas uma mãe bate panela para reaver a guarda de seu único filho. Rennan de nove anos está sob a proteção provisória do pai, Irineu de Castro, desde que este o levou para passear em novembro do ano passado. Para reverter essa situação, Janette Zanúncio mãe de Rennan, usa panelas e a criatividade na tentativa de agilizar o processo que, movido por Irineu, decide quem fica com o filho e a pensão alimentícia a que ele tem direito.

Da primeira vez que Janette veio à Porto Alegre em março deste ano, sua intenção era conseguir do Tribunal de Justiça uma ordem para que se marcasse uma audiência de conciliação no caso da guarda de seu filho. O Tribunal foi favorável ao pedido de Janette e a audiência aconteceu em Pelotas no dia 25 de abril deste ano. Como não houve acordo, a juíza da 2ª vara de família, Fabiana Hallal, ordenou que fosse realizado um estudo psicológico com os pais de Rennan.

Essa avaliação psicológica é o próximo passo no andamento do processo e, enquanto a justiça não a chamar para a entrevista com a psicóloga, Janette promete continuar azucrinando com suas panelas na Esquina Democrática.

– Tem gente lá que está esperando há cinco meses para ser chamada para a entrevista – conta.

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Baseado na luta

Felipe Baierle
Cerca de 300 pessoas protestaram pedindo a legalização da cannabis sativa no último dia nove de maio. A Marcha da Maconha teve concentração às 15h em frente ao Monumento do Expedicionário, no Parque Farroupilha, e se limitou a uma caminhada pacífica em torno do chafariz da Redenção. Nenhum maconheiro fez apologia ao uso da droga, o que desrespeitaria o acordo prévio estabelecido entre a Marcha, o Ministério Público e a Brigada Militar, conduta determinante para que a caminhada transcorresse sem violência.

Previsto para acontecer em mais 13 grandes cidades do país, o evento só foi liberado em Porto Alegre graças à um salvo-conduto concedido pelo Ministério Público Estadual (MPE) na pessoa do desembargador Nereu José Giacomolli. Os manifestantes alegaram ao MPE que o objetivo da marcha era apenas discutir a atual política de repressão aos usuários da maconha e propor soluções mais eficazes ao problema, não fazer apologia ao seu uso.

Em resposta à proibição do ato, em algumas cidades como São Paulo, Salvador e João Pessoa, os antiproibicionistas divulgaram nota pública contestando a ação dos MPEs que proibiram a caminhada. Para o Coletivo Marcha da Maconha Brasil, juristas pediram a proibição da mobilização em liminares às vésperas das datas marcadas para dificultar sua defesa jurídica à tempo de realizar o evento.

– Que tristeza se aprovarem isso, se já estão matando várias pessoas por causa dessa porcaria de droga, imagina se liberarem – desabafou dona Juraci da Cunha enquanto observava a movimentação da Marcha na Redenção.

Os antiproibicionistas do coletivo Princípio Ativo, uma das entidades que tocaram a caminhada, viram a questão sob um aspecto diferente. Eles disseram que o governo poderia, caso liberasse a maconha, controlar sua venda e cobrar impostos para financiar investimentos em saúde, educação e cultura; o que, segundo eles, seria muito mais eficaz do que gastar milhões de reais todos os anos na tentativa fracassada de conter o consumo.

Além disso, divulgaram em seu blog que a Marcha foi um sucesso, sem qualquer tipo de delito, até mesmo sob o olhar de manifestantes contrários que a acharam um absurdo, mas dos quais, dizem eles, “por algum motivo, não lembramos direito”.

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Projeto P estreia no bar Ocidente

Carolina Marquis
O “Projeto P”, concebido por Marcelo Pacheco e dirigido por ele e por Raquel Puper, estreiou no dia 13 de maio, às 22h, no Espaço OX, no Bar Ocidente (João Telles esq. Osvaldo Aranha). O espetáculo fica em cartaz nos dias 13, 20 e 27 (quartas-feiras), às 22 horas. Os ingressos custam R$ 15,00 (com direito a uma cerveja).

Marcelo, me fala um pouquinho sobre o Projeto P.
O projeto surgiu do desejo de um grupo de jovens atores em canalizar seu potencial artístico e poder produzir uma montagem que pudesse falar dos temas que nos mobilizam hoje.

E por que "Projeto P", de onde vem esse nome?
Essa é uma pergunta que queremos propositalmente deixar no ar... Cada espectador poderá fazer a sua interpretação. Queremos mais provocar do que explicar.

- Quais são os personagens que se encontram no espetáculo?
O espetáculo promove o encontro de figuras do universo pop, como Paris Hilton, Marilyn Manson, Amy Winehouse, com personagens antológicos do cinema, como Barbarella (vivida por Jane Fonda), Alex (de Laranja Mecânica), Holly Golightly (de Bonequinha de Luxo) e Andréa Cara Cortada (De Kika, de Pedro Almodóvar).
O elenco é composto por Aline Brustolin, Fani Ferreira, Karine Paz, Marcelo Pacheco, Raquel Purper, Ricardo Oswald, Tuti Muller, e participação Especial de Fabio Gonzales .

O que tu e a Raquel Purper querem mostrar com esse espetáculo?Não sei se queremos mostrar algo específico, queremos é trabalhar em cima de coisas que nos mobilizam, por afinidade ou até mesmo repulsa.

Vocês todos têm um trabalho forte com dança, nem todos são efetivamente atores, como é trabalhar com atores/bailarinos em uma peça de teatro?Todos têm formação teatral, mas também em dança, pois a maioria integra também o Grupo Experimental de Dança da Cidade. Muitos fizeram formação no TEPA, outros cursos de teatro e a Raquel é formada pelo DAD/UFRGS e atualmente está no mestrado na mesma Universidade. São experiências que se complementam e trazem um diversidade para a montagem.

Há alguma intenção política na peça?
Tudo que a gente coloca no mundo acaba tendo conotação política, não daquela partidária ou de governo, mas de relações de poder entre as pessoas. Os temas que a gente aborda e o modo como a gente aborda acabam afirmando certas posturas com a vida ou questionando estas posturas.

Todas essas personagens que tu juntas são carregados de enigmas, significados e significantes. O que pode acontecer quando eles se encontram?
Tédio absoluto ou uma fissão nuclear. Eles estabelecem um universo que envolve insatisfação, excitação, simulação, desespero, niilismo. É um mosaico de sensações e situações, que podem promover o riso ou mesmo a impaciência.

Como é dirigir um espetáculo em dupla?
É um desafio permanente e muito saboroso. Por um lado há de se encontrar os pontos de conexão de nossas visões enquanto encenadores, por outro de tirar proveito das divergências. Dá mais trabalho, mas ao mesmo tempo , amplia as possibilidades de trabalho.Além de que é sempre bom ter alguém para dividir as crises que sempre aparecem, para dialogar sobre os dilemas que se apresentam.


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Soma: terapia anarquista

Carolina Marquis
As neuroses de cada um não são geridas somente pelo indivíduo de forma isolada. O entorno, os processos das relações de poder e os micro-circuitos de autoritarismo são também geradores de processos psicológicos enfermos. Desenvolver no homem a capacidade de ser o senhor de sua própria vida, autor de seus desejos e poder assumir de forma plena as decisões que toma é o princípio básico da Soma, uma terapia que ativa as “políticas do cotidiano” e pretende fazer com que o ser seja capaz de viver momentos em que não se permita dominar, nem coaja ninguém a uma situação de inferioridade. Ou seja, momentos de liberdade.

A Soma foi criada pelo médico, psicanalista, autor, diretor de teatro e letrista Roberto Freire. Nasceu de uma pesquisa sobre o desbloqueio da criatividade, realizada no Centro de Estudos Macunaíma, no Rio de Janeiro, com as contribuições de Miriam Muniz e Sylvio Zilber. Durante a Ditadura Militar Roberto achava que as fórmulas tradicionais de psicologia e psiquiatria não eram efetivas no tratamento de companheiros de militância. Roberto buscou abordagens bioenergéticas, no teatro e na dança - atualmente se utiliza a capoeira de angola como forma de expressão e trabalho corporal.

Freire encontrou nos trabalhos do austríaco Wilhelm Reich, discípulo e depois grande crítico de Sigmund Freud, pontos que sentira falta na psicologia e psiquiatria: a tese de que a neurose é também produto de uma situação política social e de que a repressão e as liberdades usurpadas do indivíduo se manifestam através do corpo. “Parte-se do princípio de que o funcionamento da pessoa é integrativo.

Tanto no sentido do indivíduo: não existe divisão mente e corpo, tampouco existe a divisão entre indivíduo e sociedade”, diz Stéfanis Caiaffo, Doutor em Psicologia Social com especialização em Somaterapia através do Instituto Brasileiro de Estudos de Soma. Em cima desse princípio reichiano quase 60 vivências foram criadas por Roberto e pelos pesquisadores do IBES.

As sessões têm a duração de aproximadamente três horas, reúnem entre 10 e 20 pessoas, ocupa um ano e meio da vida dos participantes e são dividas em três partes. Na primeira delas o somaterapeuta – que não tem necessariamente a psicologia como formação inicial – propõe e coordena uma vivência ao grupo. Na segunda parte – chamada de leitura - os integrantes se reúnem e falam sobre as memórias que foram ativadas a partir do exercício vivenciado, as sensações despertadas em cada pessoa.

O somaterapeuta faz uma análise dos resultados da vivência: “através da catarse corporal tu liberas várias emoções e limiares de pensamento”, diz Stéfanis. A terceira parte do encontro é o momento “pedagógico”, em que o somaterapeuta divide com os componentes do grupo a teoria da vivência. Explica quais teorias embasam o conhecimento que o permite realizar a análise da relação e das reações que o grupo desenvolveu a partir da vivência experimentada. Essa última é essencial para a compreensão do que é somaterapia: ela pretende dar aos indivíduos a capacidade de autogestão.

“Roberto achava que os processos psicanalíticos eram muito longos, muito caros e, portanto, elitistas”, afirma Caiaffo “a somaterapia é interessante porque ‘abre a fonte’. Dá ao grupo o suporte teórico que permite com que cada um faça uma auto-análise”. E completa: “nós partimos do princípio de que todo ser é agressivo por natureza. Há que se ser agressivo para correr atrás dos objetivos de vida”. Segundo as teorias somaterapeuticas, a violência é gerada pela agressividade reprimida. A soma pretende fazer com que o indivíduo perceba a sociedade como um “laboratório”, e que ele seja capaz de viver o anarquismo em suas micro-relações.

Roberto Freire
“O amor, e não a vida, é o contrário da morte”. Freire nasceu no ano de 1927, no dia 18 de janeiro e amou até 2008, com 81 anos completos. Formou-se em Medicina, na Universidade do Brasil/RJ em 1952. Em 1953 foi trabalhar no Collège de France, em Paris, desenvolvendo trabalhos de endocrinologia experimental e, anos mais tarde fez sua formação psicanalítica na Sociedade Brasileira de Psicanálise/SP. A partir desse período Freire começou a pesquisa em bioenergética com discípulos de Wilhelm Reich, que gerou o início do estudo da Somaterapia.
Desenvolveu também atividades no campo cultural: sobretudo em teatro e poesia. Dirigiu peças de teatro, trabalhou com televisão e é autor dos livros “Sem tesão não há solução”, “Utopia e Paixão”, entre outros títulos.
Considerou a somaterapia a sua maior contribuição à humanidade.

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Cpers quer novas eleições para salvar o RS e pede impeachment de Yeda Crusius

Felipe Baierle
Cerca de dois mil manifestantes realizaram uma marcha que saiu da Casa do Gaúcho e se dirigiu até o Palácio Piratini no último dia 14 de maio. Os professores, movimentos sociais, partidos e ativistas cantaram aos brados gritos como “Ei, Yeda, pede pra sair”.

A chuva constante e gelada que caiu durante todo o ato não conteve a caminhada iniciada às 10h30. Vários cartazes de denúncia e palavras de ordem animaram os manifestantes que não tiveram medo da chuva.

O Cpers se baseia nas frequentes acusações feitas e refeitas à governadora, como da revista Veja por exemplo, para pedir que ela saia do comando do Estado.

– Hoje nós vemos as provas, e elas mostram que essa governadora, de fato, não tem condições de estar à frente do Rio Grande. Ela envergonha a história do nosso estado, e se continuar dentro do palácio, vai atrapalhar as investigações. Ela precisa sair já – discursou a presidente do Cpers, Rejane Oliveira.

Também falaram no carro de som, partidos como PSTU e PSOL, além de alguns sindicatos aliados a causa da ética no Rio Grande do Sul. Nos próximos dias o Cpers promete continuar se movimentando contra Yeda. Os aliados do Sindicato continuam aumentando. Cada vez mais escolas participam dos atos e mais professores se sentem ameaçados com a retirada de direitos sinalizada pelo governo com a possibilidade de revisão do plano de carreira dos professores estaduais.

É como diz a propaganda do Cpers na televisão: agora vai pegar fogo.

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Movimentos planejam acampamento em Santa Maria no início de julho

Felipe Baierle
Nos últimos dias dois e três de maio no Centro Estadual de Formação do MST em Viamão, militantes de diversos campos iniciaram a organização do Acampamento Filhos de Sepé. O evento será realizado em Santa Maria de nove a doze de julho e contará com a juventude do campo e da cidade do Movimento dos Sem Terra, Atingidos por Barragens, Pequenos Agricultores, Trabalhadores Desempregados e Levante Popular da Juventude, entre outros.

A auto-organização pretende marcar o acampamento que tem como um dos objetivos promover um estudo intensivo da situação política e social brasileira. Lorena Castillo, representante da Via Campesina que também está contribuindo com a organização do evento, disse que o encontro reunirá pessoas com e sem experiência de participação em movimentos sociais.

– Queremos reunir as referências e movimentos para construção do acampamento e mostrar que existem alternativas de organização popular aos problemas da sociedade – lembrou.

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Troca do vestibular por Enem ainda contestada

Gustavo Nunes e Leila Garcia
O Exame Nacional de Ensino Médio terá um novo modelo no ano que vem, conforme anúncio do MEC. O objetivo é o vestibular em universidades públicas como prova única para ingresso em todo o país. Ele visa ainda servir como critério de pontuação para ingresso nas universidades privadas e nos centros universitários. As escolas ainda divergem sobre a medida.

Na Unisinos, a porcentagem disponível para os candidatos em cursos de graduação é de 10%. No IPA, a reserva é de 20. As duas utilizam o mesmo parâmetro de substituição do vestibular pelo Enem, pela conversão dos pontos em conteúdos equivalentes.

De acordo Daniela Horta, da Unidade de Graduação da Unisinos, “a equivalência das notas do Enem é expressa numa escala de 0 a 100 pontos, mas na conversão será utilizada a escala de 0 a 10 pontos, igualando-se a escala de notas utilizada pelo vestibular”.

A redação e questões objetivas serão substituídas por redação e conhecimentos gerais do Enem. A Unisinos e o IPA estão entre as mais de quinhentas instituições cadastradas no Ministério da Educação e Cultura que utilizam o Enem como método de pontuação.

A alteração na prova do Enem é caracterizada pela substituição da redação e 63 questões objetivas de conhecimentos gerais, consideradas de conteúdo interdisciplinar, por 200 questões objetivas e discursivas, abrangendo quatro áreas de conhecimento: matemática, português, ciências naturais e ciências humanas, além da redação.

Além de substituir o vestibular, o novo Enem deve ser usado como parte do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade).. Atualmente, são escolhidos alunos do primeiro e último ano de todos os cursos de graduação, de forma aleatória, para realizar a prova. A intenção do MEC é que os jovens que fizerem o novo Enem sejam dispensados do Enade, realizando as provas apenas no último semestre. Dessa maneira, o Enade passa a ser obrigatório para todos os alunos, calouros e formandos dos cursos avaliados.

No Rio Grande do Sul, a primeira universidade a aderir ao Enem como forma única de processo seletivo foi a Federal de Pelotas, no verão de 2009. A Unipampa e a Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre passarão a utilizá-lo em 2010. A UFRGS ainda está indecisa e promete decisão até julho.

A Universidade Federal de Rio Grande adotará em 2010 o Enem para 50% das vagas e verstibular para os outros 50. A Federal de Santa Maria se mostra contrária ao Enem.

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sexta-feira, 22 de maio de 2009

Liberdade de imprensa

Leila Garcia
A data três de maio registrou o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Com base no artigo 19 da Declaração dos Direitos Humanos, todos têm direito à liberdade de opinião e expressão, o que inclui a liberdade de procurar, receber e transmitir informações, independente de fronteiras ou dos meios utilizados para tal.

Conforme dados da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF), em 2008 foram 60 jornalistas e um colaborador de veículo midiático morto no exercício da profissão, sendo o Iraque, o Paquistão e as Filipinas os países com maior incidência.

Há ainda, fatores como o domínio econômico entre as empresas de comunicação e a possibilidade do Estado de intervir na divulgação da informação, definindo o que é ou não de interesse público que podem impedir o exercício pleno da liberdade de imprensa. Porém, é necessário atentar para que este direito seja pautado pela atuação com base na ética e no interesse social, e que a liberdade de imprensa não sirva como justificativa de falhas e, sim, como motivo para conquistas.

Este ano, o Brasil amarga também a revogação da lei de imprensa que regulamentava o fazer jornalístico e direitos do cidadão como o Direito de Resposta, agora extinto pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Os crimes de calúnia, injúria e difamação, à responsabilidade civil do jornalista e da empresa que explora os meios de comunicação ou divulgação, eram temas tratados nos artigos suspensos, que antes resultavam em mais armas de defesa aos cidadãos. A partir de agora, cabe a justiça comum através dos Códigos Penal e Civil julgar possíveis crimes cometidos pelos profissionais da imprensa no exercício das suas atividades.

Ainda aguarda o julgamento do STF a exigência de diploma para os jornalistas. A obrigatoriedade de diploma de curso superior na área está aliada ao desempenho da atividade normalizada com base em preceitos éticos e padrões profissionais. Querem desvincular a profissão de jornalista, base de uma sociedade democrática com o argumento de que todos poderiam exerce-la.

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Trabalhadores prejudicados no 1° de maio

Felipe Baierle
Ambulantes vendedores de lanches e bebidas que estavam no Anfiteatro Pôr do Sol no dia 1° de maio foram prejudicados por Brigadianos que os obrigaram a abandonar seus pontos de venda. Por volta da uma da tarde, grupos de três PMs concentraram os ambulantes à apenas alguns metros dos banheiros químicos instalados para o uso do público no local.

Atraídos pela comemoração do Dia do Trabalhador, alguns vendedores chegaram com mais de duas horas de antecedência à festa organizada pela Força Sindical. Nenhum dos sindicalistas da Força ou mesmo o deputado estadual Mano Changes, que apresentava show no evento, tentou ajudar os ambulantes.
“Para trabalhar no Brasil, é preciso ter força e fé” foi o tema da comemoração da Força Sindical esse ano. Segundo a BM cerca de 40 mil pessoas teriam passado pelo anfiteatro durante a sexta-feira do último Dia do Trabalhador.

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Um país de brancos: a vida dos imigrantes africanos na Argentina

Carolina Soares Marquis
Daniel está de segunda a segunda na labuta. Passa os dias lutando para aprender o Espanhol, que não é sua língua mãe. Se retrai ante as primeiras perguntas e só depois de duas ou três tentativas aceita conversar sobre sua travessia pelo Oceano Atlântico. De toda maneira, Daniel como todos os demais, disse que prefere não revelar seu sobrenome.

Ele é apenas um dos imigrantes africanos que, segundo dados que constam no Coincet (Consejo Nacional de Investigaciones Científicas Y Técnicas), configuram na Argentina uma população de cinco a dez mil habitantes.

Daniel veio só de Gana há sete anos. Um ano depois de ter vindo, chegou também sua mulher e filho que, quando o tinha deixado na África, ainda estava mamando no peito. Vieram em busca de novas perspectivas econômicas e também para que seu filho e eles tenham um futuro melhor, oportunidade de ter uma boa educação e melhores condições de vida.

Aos 40 anos se dedica a vender relógios, pulseiras e produtos similares na rua, em frente ao Centro Comercial Abastos. Ao seu lado está seu conterrâneo Sam, que chegou a Argentina vindo de Gana a quatro meses e precisa do amigo Daniel para comunicar-se com seus possíveis consumidores. Sam não sabe se terminará sua imigração aqui, na Argentina, ou se continuará rumo a outro país.

– As pessoas não me tratam muito bem aqui. Já escutei muitos comentários referentes a minha cor. Nem sempre entendo o que dizem, mas pelo tom da voz me dou conta que não me dizem coisas lindas – confessa o jovem de apenas 20 anos.

Miriam Gomes, pesquisadora da Sociedade Caboverdana, disse que uma das características da última onda migratória é que muitos dos imigrantes “vêm, mas se vão em seguida”, em uma renovação constante da população africana.

“Chegam todos os dias”, disse Miriam que, através de seu trabalho na Sociedade, supõe que a maioria dos africanos chega pela fronteira com o Brasil.

Não existem números que detalhem a quantidade de africanos que chegam a Argentina, mas a estimativa é de que seria ao menos um por dia. Dessa maneira é facilmente visível nas ruas de Buenos Aires a grande quantidade que vem ao país para dedicar-se ao comércio de rua com suas bugigangas sobre barracas ou sobre bancos de praça. Esta é a solução para sua sobrevivência.

Na esquina da frente, alguns metros à esquerda está Steve, que vive na Argentina há um ano e três meses. Steve tem a fala fácil e rápida e está muito confortável ao lado de dois de seus amigos africanos. Ele conta que viveu os quatro últimos anos no Rio de Janeiro.

– Vim à Argentina porque aqui é mais fácil conseguir os papéis para o visto, mas eu amo o Brasil. As pessoas lá são muito diferentes dos argentinos. Tenho muitos amigos brasileiros e nenhum argentino – relata Steve.

Entre os três coincide a mesma opinião sobre os argentinos: “Não são pessoas muito sociáveis. Não com nós, pelo menos”. Sentem que os argentinos os temem. Nenhum tem amigo local e todos os companheiros são também imigrantes.

Mesmo que não seja um trabalho fácil, nenhum dos três reclama dos resultados econômicos que obtém.

– Eu vivo com mais três amigos aqui. Estamos um pouco apertados, mas eu não posso dizer nada. Se o vendedor sabe como se aproximar das pessoas esse trabalho trás bons resultados – explica Steve.

Segundo o Senso de 2001 realizado na Argentina, 4,9 % da população provém de paises limítrofes, mas a pesquisadora Miriam explica que a imigração africana na Argentina tem aumentado muitíssimo nos últimos anos “sobretudo depois da queda do Muro de Berlim e ante a uma Europa que se mostrou mais racista do que nunca”.

– Dizem que nós que viemos da África já somos algo entre dez mil – Steve se pergunta com um tom de exaltação – Mas, se somos dez mil, onde estão os negros nesse país de brancos?

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